Somos metades de única esperança.
Viajando à luz do sol e reflexos estelares.
Vítimas de invulgar inconvergência.
Nossas mãos a se buscarem na distância.
Erigem muros em alicerces diferentes.
Embora próximos, em paralelo caminhamos
Na busca das comuns experiências.
que nos devolvam os sonhos e lembranças.
Esquecidos no passado que tivemos.
Separados nos caminhos que trilhamos.
Com cega impaciência.
terça-feira, 25 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
O faroleiro de Saugerties
Saugerties Lighthouse
Foto: Paulo Heuser
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O faroleiro de Saugerties
Paulo Heuser
Após algum tempo, posso afirmar, eles não caminham. Não os daqui, pelo menos. Quando cheguei, fiz o que faço lá, fui caminhar. Esse negócio de Fahrenheit confunde um pouco. Levantei cedo, vesti roupa esportiva e me fui porta afora. Depois de alguns minutos, tremendo, descobri duas coisas. Não havia ninguém na rua, às 6h45, e 40F não era exatamente uma temperatura agradável. Atribuí a ausência de viva alma ao frio. Foi Robert, o alemão, quem me alertou, não caminhe, disse ele, eles estranham. Robert é veterano por aqui, sabe das coisas. Ele adora o clima daqui. Outro dia amanheceu a qualquer coisa Fahrenheit que, segundo o Google, dava -6C, negativos, mesmo. O Robert saiu em mangas de camisa, soltou um suspiro extasiado, que logo congelou, e disse da beleza da primavera daqui. É bonito, as tulipas congeladas ficam lindas. Pode-se quebrá-las. O pessoal só anda de carro. Pudera, não há ônibus. Ou melhor, há, mas nunca os vi. As paradas estão lá, porém, nada dos passageiros e nada de ônibus. O nome da empresa, impresso nas placas das paradas, pode explicar alguma coisa, pois é o Expresso Leprechaun. Ou seja, para encontrá-los, deve-se ir até o fim do arco-íris.
Não prestei atenção ao aviso do Robert e insisti em caminhar, afinal, este é um país realmente livre, desde que você não caminhe, descobri depois. Observei que há avisos, em alguns quintais, alertando de que estão de olho em você. É estranho, ninguém à vista e aquelas placas. Dá nos nervos. Encontrei um parque, Locust Grove, perfeito para se caminhar. Para diminuir a desconfiança, comecei a usar o carro para ir até lá. O parque é fantástico, há trilhas, entre uma mata de um verde desconcertante de tão fantástico. Contudo, levei algum tempo para me acostumar aos sons que emanam lá de dentro, feitos pelos esquilos, veados e outros animais, ruídos de galhos quebrados e folhas se movendo. Lembra filmes de terror. Lá dentro, além dos animais e da chinesa, ninguém. Pode ser difícil explicar a chinesa, mas tentarei. Ela me deu um tremendo susto, pois saiu correndo e gritando, de dentro da floresta. Desfeito o pavor inicial, mútuo, ela me explicou que, como eu, gostava de andar e temia andar pelas ruas, pois tinha a sensação de estar sendo observada. Ao me ver, confundiu-me com um urso albino e pôs-se a correr, já que os ursos daqui não sabem que um ser humano anda sobre as próprias pernas. Pensam tratar-se de outra coisa. Robert não ficou surpreso, quando lhe contei. Ele me confidenciou que parou de caminhar, na primeira vez que veio para cá, quando foi interceptado por uma policial, motorizada, é claro. Ela recebera denúncia da presença de alguém andando, isso mesmo, a pé. A partir de então, Robert faz como eles. Vai de carro, mesmo à farmácia, que fica à distância de míseras 50 jardas, seja lá quanto for isso. Robert observou, com astúcia germânica, que o campinho de minigolfe, aqui ao lado, está sempre vazio. É porque o carrinho elétrico quebrou, explica ele. O pessoal teria de andar três jardas, seja lá quanto for isso, de um buraco ao outro.
Caso estranho aconteceu em Saugerties, no outro final de semana. Fui conhecer o farol de lá. Para chegar até ele, percorri uma trilha, em meio à mata e um pântano que só permite a passagem durante a maré baixa. Sozinho, para variar. Não havia nem chinesas por lá. Nem ursos albinos, nada. Após 800 jardas, seja lá quanto for isso, cheguei ao farol, que faz jus ao nome de lighthouse, pois tem formato de uma casa, na confluência do Hudson com o Eposus. O lugar apresenta uma desolação poética, açoitado pelo vento, em meio à solidão do pântano. Para minha surpresa, abriu-se uma porta, e surgiu um rosto muito velho, de longas barbas brancas. Ele me olhou, de cima a baixo, e falou, com voz cansada:
- O senhor não é daqui...
- Como o senhor pode saber, se nem falei?
- Ora, nenhum homem daqui anda, em pleno domingo, sem um boné na cabeça, nem na igreja! Onde está seu o carro?
Os olhos dele percorreram as redondezas, aflitos.
- Vim andando... – respondi.
- (Censurado)! - ele praguejou. – O primeiro que aparece aqui, em 47 anos, vem a pé? Por que alguém faria isso? Como é, afinal, que sairei daqui? Espero que me busquem, faz todo esse tempo!
- Ora, por que o senhor não anda até lá, afinal, são apenas 800 jardas, seja lá quanto for isso, e a trilha não é tão ruim. Além do que, o senhor não veio para cá de carro, não é?
- Não, mas aqueles foram outros tempos...
Ele fechou a porta e me deixou sozinho, a pensar em quanto faltaria para a maré subir.
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terça-feira, 11 de maio de 2010
CONDICIONAMENTO
Ante o medo e a expectativa o homem está sujeito a estranhos procedimentos, somente justificáveis pelo avanço da medicina e a vontade de espichar um pouco mais sua vivência sobre a terra
Primeiro as recomendações calcadas em diagnósticos preocupantes, depois as instruções para os preparativos baseados em dietas específicas, compostas mais de medicamentos do que propriamente alimentação.
De permeio, se possuir plano de saúde e necessitar de autorização da mantenedora para realizar o exame recomendado, enfrenta uma fila que, por menor que seja, causa o dissabor de ver pessoas passarem a sua frente por terem avisado na recepção, e ele não, que se enquadrava em um dos grupos preferenciais: idoso, gestante ou deficiente físico, mesmo que ele aparente, sem sombra de dúvida, estar bem próximo dos setenta anos.
Vencidas estas etapas vem a sala de espera do hospital, onde são realizadas as endoscopias e as colonoscopias, nome este que o próprio Aurélio se nega a definir: informando conhecer "colonos copias", numa alusão talvez ao trabalhador da terra que aprende a copiar alguma coisa, mas no dizer médico significa o exame de parte do intestino grosso.
É inimaginável o número de pessoas que ali se reúnem, Talvez por isso o atendente, circunspeto atrás do balcão, após a identificação e assinatura de alguns papéis por parte do paciente, distribui pulseiras coloridas, embora não ponha nela qualquer sinal de identificação, fazendo com que todos se olhem para ver qual a cor que o vizinho(a) da cadeira está portando, ao mesmo tempo em que lembra maliciosamente das badaladas pulseirinhas adotadas pelos jovens para avaliação do próximo passo no jogo da conquista amorosa.
Depois vem o momento da verdade, aquele em que dependendo do diagnóstico, ele volta para casa com um sorriso nos lábios ou com o semblante carregado.
Atendentes que se multiplicam nos corredores e saletas apontam armários onde todos os pertences dos pacientes são trocados por um uniforme comum aos que se submeterão à endoscopias e colonoscopias. Em seguida os levam à ante-sala do gran finale.
Muitos pacientes conhecem as conseqüências e a necessidade de alguns cuidados antes de serem anestesiados, outros não. Esses não entendem a razão de serem questionados, quando se submetem à realização de colonoscopia, sobre se usam ou não prótese dentária, uma vez que sabem que o exame de seu intestino grosso não será realizado pela boca.
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Pereira.
Primeiro as recomendações calcadas em diagnósticos preocupantes, depois as instruções para os preparativos baseados em dietas específicas, compostas mais de medicamentos do que propriamente alimentação.
De permeio, se possuir plano de saúde e necessitar de autorização da mantenedora para realizar o exame recomendado, enfrenta uma fila que, por menor que seja, causa o dissabor de ver pessoas passarem a sua frente por terem avisado na recepção, e ele não, que se enquadrava em um dos grupos preferenciais: idoso, gestante ou deficiente físico, mesmo que ele aparente, sem sombra de dúvida, estar bem próximo dos setenta anos.
Vencidas estas etapas vem a sala de espera do hospital, onde são realizadas as endoscopias e as colonoscopias, nome este que o próprio Aurélio se nega a definir: informando conhecer "colonos copias", numa alusão talvez ao trabalhador da terra que aprende a copiar alguma coisa, mas no dizer médico significa o exame de parte do intestino grosso.
É inimaginável o número de pessoas que ali se reúnem, Talvez por isso o atendente, circunspeto atrás do balcão, após a identificação e assinatura de alguns papéis por parte do paciente, distribui pulseiras coloridas, embora não ponha nela qualquer sinal de identificação, fazendo com que todos se olhem para ver qual a cor que o vizinho(a) da cadeira está portando, ao mesmo tempo em que lembra maliciosamente das badaladas pulseirinhas adotadas pelos jovens para avaliação do próximo passo no jogo da conquista amorosa.
Depois vem o momento da verdade, aquele em que dependendo do diagnóstico, ele volta para casa com um sorriso nos lábios ou com o semblante carregado.
Atendentes que se multiplicam nos corredores e saletas apontam armários onde todos os pertences dos pacientes são trocados por um uniforme comum aos que se submeterão à endoscopias e colonoscopias. Em seguida os levam à ante-sala do gran finale.
Muitos pacientes conhecem as conseqüências e a necessidade de alguns cuidados antes de serem anestesiados, outros não. Esses não entendem a razão de serem questionados, quando se submetem à realização de colonoscopia, sobre se usam ou não prótese dentária, uma vez que sabem que o exame de seu intestino grosso não será realizado pela boca.
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Pereira.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Deu "tilti" na autora

A princípio, éramos quatorze, ou quinze. Decide, quatorze
ou quinze? Depende se o mestre entra ou não. Ele entra
ou não entra? Vou fazer como os três mosqueteiros. O
que têm eles a ver com a história? Tu não sabes? Eram
quatro e não três. Continua, o que aconteceu com os
quatorze (ou quinze)? No meio do caminho um saiu. Que
pena! Treze insistiram em prosseguir. Que bom! Duas
exclamações, não. É feio. É nada! Piorou a situação,
agora são três. Quem se importa? Deixa pra lá. Então,
eles chegaram. Quem? Os treze, lógico. E não é que isso
virou um blog? Treze à Mesa. Mesa grande essa. Era pra
ser, não fossem algumas baixas. Como assim? Isso foi
depois da chegada. Alguns nunca mais apareceram, outros
aparecem de vez em quando pra matar a saudade. Hum! e o
que vocês faziam à mesa? Tu continuas botando exclamação.
Boto quantas eu quiser! Desisto, mas já vou te avisando.
Ninguém vai gostar...Tu ainda não me respondeu! Céus!!!
Dessa vez não fui eu!. Pra mim chega, entra no blog que tu
vais saber.
MAB
terça-feira, 30 de março de 2010
Chão de brigadeiro
Foto: Wikipedia
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Chão de brigadeiro
Paulo Heuser
A coisa se complicou. O aeroporto fechou novamente. Chove demais, e os atrasos contaminam toda a malha aérea. Pouco se pode ver pela janela, a água que escorre pela fuselagem não deixa. Os minutos passam, as portas estão fechadas, todos estão com aquela cara besta pré-decolagem, e nada. Não há condições, a pista está encharcada. O brilho dos relâmpagos não anima, mesmo na ausência de trovão audível. As comissárias tentam animar a turma e distribuem aperitivos mini para todos, ainda no chão. Mau sinal, tanta generosidade anuncia que a espera poderá ser longa. Um homem usando quipá abana a mulher grávida. Os minutos passam e compõem meia hora. Vem a boa nova, o comandante anuncia que a chuva amainou e, em breve, será possível decolar. Como para todo yang existe um yin, vem a má notícia: há fila para a decolagem, pois vários aviões ficaram retidos no solo. Antes que alguém se rebele, as comissárias distribuem farta ração de aperitivos mini. Todos mastigam satisfeitos. Quando misturados com a saliva, os aperitivos transformam-se numa curiosa massa para calafetar. Celulares desligados, e la nave va. Vai até o fim da fila para a decolagem. O avião é o oitavo e anda em passo de saída de formatura em Direito. Arrasta-se sobre o concreto molhado. O passageiro da 21A ronca. O homem do quipá abana a mulher. Os demais passageiros tentam engolir seus aperitivos mini. Quem voa com freqüência sabe, para descolá-los dos dentes, fazem-se gargarejos com refrigerante zero. Os minutos passam. O passageiro da 21A ronca. O comandante anuncia aquilo que todos temiam, menos o passageiro da 21A, que só teme a insônia: o aeroporto fecha novamente. A chuva volta com tudo, logo agora, que os outros sete se foram. Os minutos passam, e nada de nova ração de aperitivos mini. Não pode, todos devem ficar sentados e afivelados. O homem de quipá abana a mulher. Algo acontece, pois desta vez o comandante pigarreia antes de falar. Após 1h15 de espera em solo, com os motores acionados, será necessário reabastecimento. E la nave ritorna. Pelo menos, durante o reabastecimento, haverá nova ração extra de aperitivos mini e refrigerante zero. Serve de consolo. De onde vêm todos esses aperitivos? O passageiro da 21A ronca. Em meio à volta, o grito: - Comissário! O homem de quipá acode a mulher grávida que enche o saco para enjôo. O ocupante da 20C comenta: - Se ela enjoa no chão, como será no ar? O passageiro da 21A acorda com o solavanco que indica a parada no finger, confere o relógio, espreguiça-se e declara: - Chegamos, que vôo agradável...
prheuser@gmail.com
http://www.pauloheuser.blogspot.com/
sexta-feira, 19 de março de 2010
Mistérios da mente
Fonte: Wikipedia
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Mistérios da mente
Paulo Heuser
Ulli adora os pastéis de joelho de porco. Sua predileção recai sobre os Schweinshaxepasteten da Áustria, mais crocantes, quando comparados aos Eisbeinpasteten de Munique. O primeiro contato dele com essa iguaria ocorreu em Kirchdorf an der Krems, Áustria, na Schweinshaxepasteten-Haus GmbH, minúsculo restaurante localizado no Simon Redtenbacher Platz halb 4. Os pastéis de lá são inigualáveis, recheados generosamente com um joelho de porco assado e meio repolho roxo. Ulli é o apelido do Klaus-Ulrich Klosettschüsselfüllung, filho de um vendedor de medidores de pH para chucrute, que imigrou para o interior de Linha Nova Áustria do Sul, RS. O pequeno Ulli desde cedo mostrou uma queda para as ciências químicas, como o pai. Ainda no jardim de infância, desenvolveu sua variante para o clássico Abfülltenfurtzen (peido engarrafado) e acrescentou traços de gás de repolho ao gás sulfídrico - H2S. A genialidade precoce do menino não passou despercebida, e ele foi enviado à Universidade da Basiléia, Suíça, onde se graduou em Química e doutorou-se em Neuroquímica, orientado pelo célebre prof. Albert Hoffman, aquele que fez a juventude dos anos 60 e 70 enxergar coisas coloridas onde nada havia. Ulli não seguiu os estudos psicodélicos do mestre e dedicou-se a desvendar os misteriosos mecanismos da memória. Embrenhou-se nas ligações químicas efetuadas pelos neurônios responsáveis pela codificação, pelo armazenamento e pela recuperação das sensações e das ideias.
Foi num sábado, lá pelo meio-dia. Ulli deu um pulo até Vale do Sol. Lá, seguindo pela pequena estrada que cruza próximo à Pousada Formigão, há uma casa onde mora Oma Elfriede, uma velha senhora austríaca, que domina a arte da confecção dos Schweinshaxepasteten. Ele não estava sozinho, havia turistas da Capital, que, de alguma forma, haviam chegado até lá. Oma Elfriede complementa a renda familiar através da especialidade culinária que é transmitida de mãe para filha, os Gerosteschweinshaxepasteten, versão de forno dos fritos, os Gebrateneschweinshaxepasteten.
As moscas já empestavam o alpendre sob o qual os comensais se sentavam, à longa mesa de madeira rústica. A conversa girava em torno das Olimpíadas de Inverno de Vancouver. Comentavam da loucura de alguém que se jogara perau abaixo, de cabeça, em um minúsculo trenó. Um sujeito calvo, que matava moscas com palmadas certeiras, perguntou:
- Vancouver fica na Alemanha?
- Não, se ficasse na Alemanha chamar-se-ia Von Kuwer... – respondeu-lhe alguém.
- Ah, percebi, fica na Holanda!
Essa conversa foi o gatilho que disparou a tempestade no cérebro do Ulli. Ele finalmente pode desvendar os mistérios neuroquímicos da memória. Pena que ele não se lembra mais disso.
prheuser@gmail.com
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Tour
Alguém me reconhece?
Vou ver se na próxima, saio no primeiro plano.
Até a volta, Nana.
MAB
sábado, 20 de fevereiro de 2010
França - 13 à table
Para quem pensa que somos um mero grupo de escritores brasileiros...olha nós aí em uma rua de Paris.
Está tudo ótimo, vejo vocês na volta!
beijos
Está tudo ótimo, vejo vocês na volta!
beijos
sábado, 13 de fevereiro de 2010
INDECISÃO
Já era tarde, mas o sol não se conteve e voltou para dar mais uma espiadinha, antes de se esconder de vez. Sabia que o momento era único e tua presença ali, talvez....
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
A dor de barriga do Zé
O fim do mundo, muito diferente do que todos achavam, não veio com chuva de fogo, ácido ou água nem com terremotos, enchentes ou secas. O fim do mundo começou numa segunda-feira quando Zé resolveu parar.
Ao abrir os olhos, disse para a sua mulher que não estava se sentindo bem. Acho que é azia. Ele sonhara a noite inteira com desgraças alheias e próprias e com a voz do Bonner como locutor do seu sono. Eu dormi mal, mas é a barriga, estou com dor de barriga. Também... come feito louco e vai dormir, já te avisei e quando tu vai no médico fazer a revisão que me prometeu? Marieta o bombardeou. Ele não respondeu, perdera a vontade.
No escritório, Zé ficou horas e horas olhando vagamente para a tela do computador, apertando abobalhadamente o mouse decidido a ler o perfil de todas gatinhas do orkut. O telefone toca e Zé acorda de seu sono, só ouvimos ele dizer “não, não quero fazer” e desligar.
O homem do outro lado da linha primeiro pragueja, depois senta no sofá e desiste de sair, estão vendendo coisas magníficas na tv. Os seus filhos ficam na escola. A mãe compreende esse gesto e resolve terminar seus dias dando voltas em corredores intermináveis de lojas onde nada se vende e nada se compra. A moça que faz estágio na livraria do shopping nunca mais volta para a faculdade e fica sentada no chão olhando todas as revistas de moda.
Nas faculdades, só se avistam alunos em frente ao computador perseguindo pessoas e sendo seguidoras delas no mundo da internet. O doutor professor da faculdade joga dardos atrás da porta do gabinete, enxerga o pó se acumular sobre os trabalhos dos alunos e consome só mais um whisky.
No estacionamento e nas ruas podiam ser avistados vários carros abandonados, alguns com gente ouvindo música e outros com as portas escancaradas. Todos parados. Em frente ao prédio do Zé, o caminhão de lixo parou exalando um cheiro terrível e Marieta deixou a sopa para a dor de barriga do Zé incendiar no fogão para ver as últimas novidades do BIG BROTHER e se abanar com um leque, estava fazendo calor mesmo aquela semana.
Ninguém sobreviveu.
Ao abrir os olhos, disse para a sua mulher que não estava se sentindo bem. Acho que é azia. Ele sonhara a noite inteira com desgraças alheias e próprias e com a voz do Bonner como locutor do seu sono. Eu dormi mal, mas é a barriga, estou com dor de barriga. Também... come feito louco e vai dormir, já te avisei e quando tu vai no médico fazer a revisão que me prometeu? Marieta o bombardeou. Ele não respondeu, perdera a vontade.
No escritório, Zé ficou horas e horas olhando vagamente para a tela do computador, apertando abobalhadamente o mouse decidido a ler o perfil de todas gatinhas do orkut. O telefone toca e Zé acorda de seu sono, só ouvimos ele dizer “não, não quero fazer” e desligar.
O homem do outro lado da linha primeiro pragueja, depois senta no sofá e desiste de sair, estão vendendo coisas magníficas na tv. Os seus filhos ficam na escola. A mãe compreende esse gesto e resolve terminar seus dias dando voltas em corredores intermináveis de lojas onde nada se vende e nada se compra. A moça que faz estágio na livraria do shopping nunca mais volta para a faculdade e fica sentada no chão olhando todas as revistas de moda.
Nas faculdades, só se avistam alunos em frente ao computador perseguindo pessoas e sendo seguidoras delas no mundo da internet. O doutor professor da faculdade joga dardos atrás da porta do gabinete, enxerga o pó se acumular sobre os trabalhos dos alunos e consome só mais um whisky.
No estacionamento e nas ruas podiam ser avistados vários carros abandonados, alguns com gente ouvindo música e outros com as portas escancaradas. Todos parados. Em frente ao prédio do Zé, o caminhão de lixo parou exalando um cheiro terrível e Marieta deixou a sopa para a dor de barriga do Zé incendiar no fogão para ver as últimas novidades do BIG BROTHER e se abanar com um leque, estava fazendo calor mesmo aquela semana.
Ninguém sobreviveu.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
SOMENTE SOMBRAS
Salvados das chamas
do tempo insensível.
Soprei sobre as cinzas
procurando a lembrança
que ainda seduz.
Só encontrei saudades:
Recordações antigas
Sombras na parede,
de tuas mãos amigas.
Apagamos a luz.
do tempo insensível.
Soprei sobre as cinzas
procurando a lembrança
que ainda seduz.
Só encontrei saudades:
Recordações antigas
Sombras na parede,
de tuas mãos amigas.
Apagamos a luz.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
A QUEDA DO JACARANDÁ
Velavam-te os pássaros que de ti dependiam.
Os homens, embora descansassem em tua sombra, traziam seus cães para urinarem no tronco, enquanto tropeçavam em tuas raízes, ignorando o tapete de flores que o vento estendera na primavera.
O peso dos ramos anunciava tua queda, prematura para tua espécie.
O tempo, muito tempo, não foi suficiente para alertar as autoridades sobre a necessidade de cuidados.
A poda que te daria viço chegou atrasada. Podaram antes tuas raízes.
Bastou um vento mais forte, a chuva erodir o chão, onde um dia alguém te plantou, e a morte foi decretada.
Quem te abreviou a vida e um dia descansou em tua sombra será acusado de tua morte.
Quem, por ofício, devia velar por ti, continuará chegando atrasado.
Quem velava por ti encontrará outros ramos para deitar seu ninho.
Teu tronco se transformará na poluição que combateste.
Enquanto isso, o ar, que querias purificar, foi insuficiente no pulmão do homem de casamento marcado.
Pereira
Os homens, embora descansassem em tua sombra, traziam seus cães para urinarem no tronco, enquanto tropeçavam em tuas raízes, ignorando o tapete de flores que o vento estendera na primavera.
O peso dos ramos anunciava tua queda, prematura para tua espécie.
O tempo, muito tempo, não foi suficiente para alertar as autoridades sobre a necessidade de cuidados.
A poda que te daria viço chegou atrasada. Podaram antes tuas raízes.
Bastou um vento mais forte, a chuva erodir o chão, onde um dia alguém te plantou, e a morte foi decretada.
Quem te abreviou a vida e um dia descansou em tua sombra será acusado de tua morte.
Quem, por ofício, devia velar por ti, continuará chegando atrasado.
Quem velava por ti encontrará outros ramos para deitar seu ninho.
Teu tronco se transformará na poluição que combateste.
Enquanto isso, o ar, que querias purificar, foi insuficiente no pulmão do homem de casamento marcado.
Pereira
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Estranheza
Espio o mundo da janela.
Deparo-me com outras janelas, em geral vazias.
Talvez alguém esconda-se atrás de uma cortina e me observa.
Não vejo o céu que se perde entre os paredões de concreto e vidro.
Deparo-me com outras janelas, em geral vazias.
Talvez alguém esconda-se atrás de uma cortina e me observa.
Não vejo o céu que se perde entre os paredões de concreto e vidro.
À noite, já não procuro mais a lua ou as estrelas.
Os limites da cidade encurtam a minha visão.
Resigno-me, embora traga no peito um amargor.
O que foi que eu perdi?
MAB
Os limites da cidade encurtam a minha visão.
Resigno-me, embora traga no peito um amargor.
O que foi que eu perdi?
MAB
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