Foto: Daniel Miranda

terça-feira, 11 de maio de 2010

CONDICIONAMENTO

Ante o medo e a expectativa o homem está sujeito a estranhos procedimentos, somente justificáveis pelo avanço da medicina e a vontade de espichar um pouco mais sua vivência sobre a terra
Primeiro as recomendações calcadas em diagnósticos preocupantes, depois as instruções para os preparativos baseados em dietas específicas, compostas mais de medicamentos do que propriamente alimentação.
De permeio, se possuir plano de saúde e necessitar de autorização da mantenedora para realizar o exame recomendado, enfrenta uma fila que, por menor que seja, causa o dissabor de ver pessoas passarem a sua frente por terem avisado na recepção, e ele não, que se enquadrava em um dos grupos preferenciais: idoso, gestante ou deficiente físico, mesmo que ele aparente, sem sombra de dúvida, estar bem próximo dos setenta anos.
Vencidas estas etapas vem a sala de espera do hospital, onde são realizadas as endoscopias e as colonoscopias, nome este que o próprio Aurélio se nega a definir: informando conhecer "colonos copias", numa alusão talvez ao trabalhador da terra que aprende a copiar alguma coisa, mas no dizer médico significa o exame de parte do intestino grosso.
É inimaginável o número de pessoas que ali se reúnem, Talvez por isso o atendente, circunspeto atrás do balcão, após a identificação e assinatura de alguns papéis por parte do paciente, distribui pulseiras coloridas, embora não ponha nela qualquer sinal de identificação, fazendo com que todos se olhem para ver qual a cor que o vizinho(a) da cadeira está portando, ao mesmo tempo em que lembra maliciosamente das badaladas pulseirinhas adotadas pelos jovens para avaliação do próximo passo no jogo da conquista amorosa.
Depois vem o momento da verdade, aquele em que dependendo do diagnóstico, ele volta para casa com um sorriso nos lábios ou com o semblante carregado.
Atendentes que se multiplicam nos corredores e saletas apontam armários onde todos os pertences dos pacientes são trocados por um uniforme comum aos que se submeterão à endoscopias e colonoscopias. Em seguida os levam à ante-sala do gran finale.
Muitos pacientes conhecem as conseqüências e a necessidade de alguns cuidados antes de serem anestesiados, outros não. Esses não entendem a razão de serem questionados, quando se submetem à realização de colonoscopia, sobre se usam ou não prótese dentária, uma vez que sabem que o exame de seu intestino grosso não será realizado pela boca.
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Pereira.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Deu "tilti" na autora


A princípio, éramos quatorze, ou quinze. Decide, quatorze
ou quinze? Depende se o mestre entra ou não. Ele entra
ou não entra? Vou fazer como os três mosqueteiros. O
que têm eles a ver com a história? Tu não sabes? Eram
quatro e não três. Continua, o que aconteceu com os
quatorze (ou quinze)? No meio do caminho um saiu. Que
pena! Treze insistiram em prosseguir. Que bom! Duas
exclamações, não. É feio. É nada! Piorou a situação,
agora são três. Quem se importa? Deixa pra lá. Então,
eles chegaram. Quem? Os treze, lógico. E não é que isso
virou um blog? Treze à Mesa. Mesa grande essa. Era pra
ser, não fossem algumas baixas. Como assim? Isso foi
depois da chegada. Alguns nunca mais apareceram, outros
aparecem de vez em quando pra matar a saudade. Hum! e o
que vocês faziam à mesa? Tu continuas botando exclamação.
Boto quantas eu quiser! Desisto, mas já vou te avisando.
Ninguém vai gostar...Tu ainda não me respondeu! Céus!!!
Dessa vez não fui eu!. Pra mim chega, entra no blog que tu
vais saber.

MAB





terça-feira, 30 de março de 2010

Chão de brigadeiro

Foto: Wikipedia
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Chão de brigadeiro

Paulo Heuser



A coisa se complicou. O aeroporto fechou novamente. Chove demais, e os atrasos contaminam toda a malha aérea. Pouco se pode ver pela janela, a água que escorre pela fuselagem não deixa. Os minutos passam, as portas estão fechadas, todos estão com aquela cara besta pré-decolagem, e nada. Não há condições, a pista está encharcada. O brilho dos relâmpagos não anima, mesmo na ausência de trovão audível. As comissárias tentam animar a turma e distribuem aperitivos mini para todos, ainda no chão. Mau sinal, tanta generosidade anuncia que a espera poderá ser longa. Um homem usando quipá abana a mulher grávida. Os minutos passam e compõem meia hora. Vem a boa nova, o comandante anuncia que a chuva amainou e, em breve, será possível decolar. Como para todo yang existe um yin, vem a má notícia: há fila para a decolagem, pois vários aviões ficaram retidos no solo. Antes que alguém se rebele, as comissárias distribuem farta ração de aperitivos mini. Todos mastigam satisfeitos. Quando misturados com a saliva, os aperitivos transformam-se numa curiosa massa para calafetar. Celulares desligados, e la nave va. Vai até o fim da fila para a decolagem. O avião é o oitavo e anda em passo de saída de formatura em Direito. Arrasta-se sobre o concreto molhado. O passageiro da 21A ronca. O homem do quipá abana a mulher. Os demais passageiros tentam engolir seus aperitivos mini. Quem voa com freqüência sabe, para descolá-los dos dentes, fazem-se gargarejos com refrigerante zero. Os minutos passam. O passageiro da 21A ronca. O comandante anuncia aquilo que todos temiam, menos o passageiro da 21A, que só teme a insônia: o aeroporto fecha novamente. A chuva volta com tudo, logo agora, que os outros sete se foram. Os minutos passam, e nada de nova ração de aperitivos mini. Não pode, todos devem ficar sentados e afivelados. O homem de quipá abana a mulher. Algo acontece, pois desta vez o comandante pigarreia antes de falar. Após 1h15 de espera em solo, com os motores acionados, será necessário reabastecimento. E la nave ritorna. Pelo menos, durante o reabastecimento, haverá nova ração extra de aperitivos mini e refrigerante zero. Serve de consolo. De onde vêm todos esses aperitivos? O passageiro da 21A ronca. Em meio à volta, o grito: - Comissário! O homem de quipá acode a mulher grávida que enche o saco para enjôo. O ocupante da 20C comenta: - Se ela enjoa no chão, como será no ar? O passageiro da 21A acorda com o solavanco que indica a parada no finger, confere o relógio, espreguiça-se e declara: - Chegamos, que vôo agradável...



prheuser@gmail.com
http://www.pauloheuser.blogspot.com/

sexta-feira, 19 de março de 2010

Mistérios da mente

Fonte: Wikipedia
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Mistérios da mente

Paulo Heuser


Ulli adora os pastéis de joelho de porco. Sua predileção recai sobre os Schweinshaxepasteten da Áustria, mais crocantes, quando comparados aos Eisbeinpasteten de Munique. O primeiro contato dele com essa iguaria ocorreu em Kirchdorf an der Krems, Áustria, na Schweinshaxepasteten-Haus GmbH, minúsculo restaurante localizado no Simon Redtenbacher Platz halb 4. Os pastéis de lá são inigualáveis, recheados generosamente com um joelho de porco assado e meio repolho roxo. Ulli é o apelido do Klaus-Ulrich Klosettschüsselfüllung, filho de um vendedor de medidores de pH para chucrute, que imigrou para o interior de Linha Nova Áustria do Sul, RS. O pequeno Ulli desde cedo mostrou uma queda para as ciências químicas, como o pai. Ainda no jardim de infância, desenvolveu sua variante para o clássico Abfülltenfurtzen (peido engarrafado) e acrescentou traços de gás de repolho ao gás sulfídrico - H2S. A genialidade precoce do menino não passou despercebida, e ele foi enviado à Universidade da Basiléia, Suíça, onde se graduou em Química e doutorou-se em Neuroquímica, orientado pelo célebre prof. Albert Hoffman, aquele que fez a juventude dos anos 60 e 70 enxergar coisas coloridas onde nada havia. Ulli não seguiu os estudos psicodélicos do mestre e dedicou-se a desvendar os misteriosos mecanismos da memória. Embrenhou-se nas ligações químicas efetuadas pelos neurônios responsáveis pela codificação, pelo armazenamento e pela recuperação das sensações e das ideias.
Foi num sábado, lá pelo meio-dia. Ulli deu um pulo até Vale do Sol. Lá, seguindo pela pequena estrada que cruza próximo à Pousada Formigão, há uma casa onde mora Oma Elfriede, uma velha senhora austríaca, que domina a arte da confecção dos Schweinshaxepasteten. Ele não estava sozinho, havia turistas da Capital, que, de alguma forma, haviam chegado até lá. Oma Elfriede complementa a renda familiar através da especialidade culinária que é transmitida de mãe para filha, os Gerosteschweinshaxepasteten, versão de forno dos fritos, os Gebrateneschweinshaxepasteten.
As moscas já empestavam o alpendre sob o qual os comensais se sentavam, à longa mesa de madeira rústica. A conversa girava em torno das Olimpíadas de Inverno de Vancouver. Comentavam da loucura de alguém que se jogara perau abaixo, de cabeça, em um minúsculo trenó. Um sujeito calvo, que matava moscas com palmadas certeiras, perguntou:
- Vancouver fica na Alemanha?
- Não, se ficasse na Alemanha chamar-se-ia Von Kuwer... – respondeu-lhe alguém.
- Ah, percebi, fica na Holanda!
Essa conversa foi o gatilho que disparou a tempestade no cérebro do Ulli. Ele finalmente pode desvendar os mistérios neuroquímicos da memória. Pena que ele não se lembra mais disso.


prheuser@gmail.com
http://www.pauloheuser.blogspot.com/

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tour


Eu, por distração, fiquei de costas para o fotógrafo.
Alguém me reconhece?
Vou ver se na próxima, saio no primeiro plano.
Até a volta, Nana.

MAB

sábado, 20 de fevereiro de 2010

França - 13 à table

Para quem pensa que somos um mero grupo de escritores brasileiros...olha nós aí em uma rua de Paris.
Está tudo ótimo, vejo vocês na volta!

beijos

sábado, 13 de fevereiro de 2010

INDECISÃO

Já era tarde, mas o sol não se conteve e voltou para dar mais uma espiadinha, antes de se esconder de vez. Sabia que o momento era único e tua presença ali, talvez....

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A dor de barriga do Zé

           O fim do mundo, muito diferente do que todos achavam, não veio com chuva de fogo, ácido ou água nem com terremotos, enchentes ou secas. O fim do mundo começou numa segunda-feira quando Zé resolveu parar.


           Ao abrir os olhos, disse para a sua mulher que não estava se sentindo bem. Acho que é azia. Ele sonhara a noite inteira com desgraças alheias e próprias e com a voz do Bonner como locutor do seu sono. Eu dormi mal, mas é a barriga, estou com dor de barriga. Também... come feito louco e vai dormir, já te avisei e quando tu vai no médico fazer a revisão que me prometeu? Marieta o bombardeou. Ele não respondeu, perdera a vontade.


           No escritório, Zé ficou horas e horas olhando vagamente para a tela do computador, apertando abobalhadamente o mouse decidido a ler o perfil de todas gatinhas do orkut. O telefone toca e Zé acorda de seu sono, só ouvimos ele dizer “não, não quero fazer” e desligar.


          O homem do outro lado da linha primeiro pragueja, depois senta no sofá e desiste de sair, estão vendendo coisas magníficas na tv. Os seus filhos ficam na escola. A mãe compreende esse gesto e resolve terminar seus dias dando voltas em corredores intermináveis de lojas onde nada se vende e nada se compra. A moça que faz estágio na livraria do shopping nunca mais volta para a faculdade e fica sentada no chão olhando todas as revistas de moda.

           Nas faculdades, só se avistam alunos em frente ao computador perseguindo pessoas e sendo seguidoras delas no mundo da internet. O doutor professor da faculdade joga dardos atrás da porta do gabinete, enxerga o pó se acumular sobre os trabalhos dos alunos e consome só mais um whisky.


            No estacionamento e nas ruas podiam ser avistados vários carros abandonados, alguns com gente ouvindo música e outros com as portas escancaradas. Todos parados. Em frente ao prédio do Zé, o caminhão de lixo parou exalando um cheiro terrível e Marieta deixou a sopa para a dor de barriga do Zé incendiar no fogão para ver as últimas novidades do BIG BROTHER e se abanar com um leque, estava fazendo calor mesmo aquela semana.


Ninguém sobreviveu.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

SOMENTE SOMBRAS

Salvados das chamas
do tempo insensível.
Soprei sobre as cinzas
procurando a lembrança
que ainda seduz.
Só encontrei saudades:
Recordações antigas
Sombras na parede,
de tuas mãos amigas.
Apagamos a luz.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A QUEDA DO JACARANDÁ

Velavam-te os pássaros que de ti dependiam.
Os homens, embora descansassem em tua sombra, traziam seus cães para urinarem no tronco, enquanto tropeçavam em tuas raízes, ignorando o tapete de flores que o vento estendera na primavera.
O peso dos ramos anunciava tua queda, prematura para tua espécie.
O tempo, muito tempo, não foi suficiente para alertar as autoridades sobre a necessidade de cuidados.
A poda que te daria viço chegou atrasada. Podaram antes tuas raízes.
Bastou um vento mais forte, a chuva erodir o chão, onde um dia alguém te plantou, e a morte foi decretada.
Quem te abreviou a vida e um dia descansou em tua sombra será acusado de tua morte.
Quem, por ofício, devia velar por ti, continuará chegando atrasado.
Quem velava por ti encontrará outros ramos para deitar seu ninho.
Teu tronco se transformará na poluição que combateste.
Enquanto isso, o ar, que querias purificar, foi insuficiente no pulmão do homem de casamento marcado.

Pereira

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Estranheza

Espio o mundo da janela.
Deparo-me com outras janelas, em geral vazias.
Talvez alguém esconda-se atrás de uma cortina e me observa.
Não vejo o céu que se perde entre os paredões de concreto e vidro.
À noite, já não procuro mais a lua ou as estrelas.
Os limites da cidade encurtam a minha visão.
Resigno-me, embora traga no peito um amargor.
O que foi que eu perdi?
MAB

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

VOU SER LOUCO

Vou ser louco, a Lei vou transgredir
Vou buscar desesperadamente o amor
entre loucos, ébrios e vagabundos.
Ou encontro meu sonho,
minha alma roubada,
nos caminhos incertos,
nas trilhas erradas,
ou serei mais um louco a vagar pelo mundo

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Hoje

Imagem: MAB

Hoje,
Vou nadar no riacho da minha infância
e soltar pipas coloridas no céu.
Aos estranhos que eu cruzar, direi olá.
Àqueles que insistirem em não me ouvir, gritarei.

Podem até me chamar de louca.
Não me importo!
Mas vou conversar com as flores e os pássaros.

Sob a luz do luar, dançarei ao meu amado.
E se não houver alguém para amar,
ainda assim, amarei
o amor que há em mim.

MAB